quarta-feira, 8 de maio de 2013

Mais uma da série: Eu mereço. Só que não.


Às vezes saio do trabalho com um cansaço que é fácil de se reconhecer. Já no ponto de ônibus, enfrento o tormento de uma cidade cotidianamente engarrafada e barulhenta. Enquanto aguardo o transporte, não entendo por que os ambulantes insistem em vender CD's na opção de demonstrar o produto no volume mais alto. Ok, penso eu, você está indo para casa, então relaxe. Tenho a sorte de sentar no transporte coletivo, mas logo sinto que ela se esvai, porque um suposto hit começa a ocupar todo o espaço sonoro do veículo, vez que um bunito sentado duas cadeiras à frente se acha um DJ de buzu. Nessa hora ele poderia lembrar pra que serve um fone de ouvido.

Você pensa que, chegando a casa, finalmente poderá descansar. Ledo engano. Esqueci que minha vizinhança é bastante insistente em tentar entreter toda a comunidade ao redor, colocando músicas no áudio máximo. Não importa o dia da semana -- de domingo a domingo -- e, pior ainda, não importa a hora.

Não basta o reggae de um disco batido de Alpha Blondy ou as versões em DUB das canções de Adele nas alturas. Não basta todos os discos de Pablo ou Silvano Salles, em geral com uma das músicas no repeat o dia todo (mesmo!). Também não basta hino de futebol, axé, pagode e música sertaneja. E, sobretudo, não basta o funk carioca com suas letras sugestivas: se eu cozinho, eu como, se eu cozinho, eu como (algo do mais trash "de todos os tempos da última semana", parafraseando o Titãs). 

Enfim, dá de tudo nessa salada musical. E não me levem a mal em falar mal. Independentemente de eu gostar ou não das músicas, o que incomoda, o que irrita profundamente é o barulho.

Eis que, hoje, o que invadiu forçosamente minha janela e meus tímpanos não é nada de novo. A vizinhança -- será alguém da terceira idade? -- achou de tirar do baú as canções imortalizadas por Altemar Dutra, Francisco Alves, Nelson Gonçalves, Sérgio Bittencourt, Elizeth Cardoso, Dalva de Oliveira, Herivelto Martins, Waldick Soriano e todo o pessoal da mais profunda fossa romântica...

♫♪♫ Sentimental eu sou, eu sou demais... ♫♪ Que queres tu de mim?... ♫♪ Aquele amor que sonhei... ♫♪ Boemia, aqui me tens de regresso... ♫♪ De noite, eu rondo a cidade a te procurar, sem encontrar... Volto pra casa abatida, desenganada da vida... ♫♪ Índia, teus cabelos... ♫♪ Cinderela eu sou... Cinderela, menina moça, coração a palpitar, que o seu príncipe encantado vai chegar... ♫♪ Adeus, amor, eu vou partir, ah, eu vou-me embora... você cortou o barato do meu amor, você mentiu, iludiu e me deixou por fora... ♫♪ Velho, meu querido velho... ♫♪ Hoje, que a noite está calma e que minh'alma esperava por ti... Volta, fica comigo, só mais uma noite... ♫♪ Alguém me disse que tu amas novamente... ♫♪ De que é feito afinal esse meu coração?♫♪♫

Tudo bem que, nessa época, nem tão distante assim, a música brasileira produzia uma seresta de responsa. Mas, uma coisa há de ser dita: esse playlist era quase como pedir uma dose certeira de cicuta para aplacar a dor no coração de um ser que padece de amor. Ô povo que sofre, meu Deus!


Capa do álbum de Francisco Alves, "O cantor eclético". Qualquer semelhança não é mera coincidência.

(Imagino que, neste momento, aquele que conhece os supracitados e verdadeiros artistas da fossa estará se perguntando numa epifania reveladora: quem é Pablo na tabela periódica da paixão?)

Já tive, inclusive, meus momentos de ouvir Dolores Duran, Nana Caymmi e Maria Bethânia para aplainar dor de amores. Não vou mentir que, se por acaso houvesse uma cervejinha e se alguns amigos (eles sabem quem são) estivessem em minha casa, poderíamos compartilhar da dor do vizinho, rir, chorar e sofrer juntos, reclamar aos ventos sobre a vida e o mundo, tudo isso sem ter que recorrer ao Facebook para postar piadas, revoltas, indiretas e outras mesmices.

Para mim, o ponto positivo ao escutar as letras das composições tocadas é poder perceber que, na arte de lidar com a dor, não falta criatividade e assunto na música brasileira. No entanto, o ponto negativo é que, recortando um trecho do rei Roberto Carlos, "todos estão surdos", porque ainda falta ao ouvinte aprender a abaixar o volume no dial. Pois, nessa hora, quem acaba sofrendo mais sou eu...


sábado, 20 de abril de 2013

Rir para não chorar ou, se for para chorar, vamos beber.

Nosso Brasil é um país único, singular, idiossincrático, penso eu. Nossas tentativas de mudança para um estado realmente democrático de direitos sempre trazem enormes falhas, mas a gente continua otimista. Na maioria das vezes, torcendo e brigando por nossos times de futebol, questionando os altos preços dos smartphones, acreditando nas propagandas, depreciando verbalmente nossos representantes eleitos, compartilhando indignações nas redes sociais etc. Tudo porque somos brasileiros e não desistimos nunca. Para mim, algo de um esquema: "rir para não chorar" ou "se for para chorar, vamos beber".

Nesta semana, eu ouvi uma delegada em palestra justificar o porquê de a delegacia pela qual responde ficar com as portas fechadas à noite: gente, é falta de segurança, pois só há dois policiais no plantão. Hã? E hoje eu acabo de assistir à reprise de um programa de televisãocuja pauta era "segurança privada", focando a discussão sobre o crescente número de arrastões nos restaurantes paulistas. Neste, o entrevistado falava, ou melhor, vendia um pacote chamado "kit arrastão", no qual o restaurante (ou qualquer pessoa física contratante) pode dispor de um "botão de pânico", que, diante de uma situação de assalto e roubo, ao ser acionado, contacta imediatamente uma equipe de vigilância remota, sempre alerta e à disposição para um pronto atendimento... 

Conforme concluiu ironicamente um dos componentes da mesma mesa em que a referida delegada participou, daqui a um tempo será solicitado ao secretário de segurança pública que contrate segurança privada para as delegacias e outros serviços públicos por falta de segurança.

Então, tirem suas próprias conclusões. Eu ri para não chorar.

De outra parte, quando estou em casa, não muito raro escuto os ecos sonoros das escolhas musicais da vizinhança. Às vezes alto até demais, invadindo meus ouvidos de maneira violenta, isto é, desrespeitando meu direito de silêncio. Porém, o que mais me intriga é que geralmente são músicas de conteúdo apaixonado, aquele sentimento de dor, saudade, sofrimento, como uma pena autoinfligida. Nada contra. Obviamente, tem quem goste de sofrer. Mas o que é que isso tem a ver com o assunto acima?

Você nunca se perguntou por que se vende tanta música de dor, paixão não correspondida, traição e outras mazelas do coração? Já eu, de tanto escutar a dor alheia no consultório, ou mesmo pelas insistentes músicas que atravessam a janela de minha privacidade, tenho me feito essa questão com frequência.

Trata-se de uma pergunta de amplo espectro e, de igual mandeira, assim são as respostas possíveis. Por isso, eu já associei a mil coisas, embora todas elas sempre atinentes à nossa realidade brasileira - globalizada? -, tanto em âmbito individual quanto social. No entanto, o recorte que  quero trazer aqui é mais social; leia-se: fenômenos de massa. 


Faça chuva ou faça sol, à espreita de nosso drama, alcançando a luz de uma sombra muito maior, sempre estará um sertanejo, arrocheiro, pagodeiro, axezeiro ou um crooner romântico qualquer. Qual seja o estilo, o intuito é, para além da arte musical, movimentar a economia da ilusão. Se o pacote vier com cerveja, então, melhor ainda. Basta prestar atenção nas letras das músicas. Não à toa, as cervejarias são os grandes patrocinadores por detrás de shows, festas e eventos nos quais tais artistas são as estrelas principais,  isso sem falar nos estádios de futebol, mas deixemos essa parte para lá. 

O que todos sabem é que a gente se anestesia ao ingerir álcool, alterando a consciência e criando realidades paralelas à nossa existência cruel e difícil, seja horizontalmente por um amor não correspondido, seja pela dominação vertical de um poder financeiro/econômico de grandes entidades (públicas e privadas). E estas dão sempre um jeito de colocar nossos direitos em patamar inalcançável à maioria da população. É evidente que contam, por tabela, com a nossa participação apaixonada, alienada, passiva e omissa no processo.

E voltamos ao ciclo vicioso e repetitivo, que tem a ver com manter nossas situações absurdas, tal como a relatada no início deste texto. Quem não se lembra do sarcástico Renato Fechine?

É por isso e outras razões que, se for para chorar, vamos beber. Talvez seja o caminho mais fácil e suportável. Mas por que tem de ser sempre assim?



sábado, 25 de agosto de 2012

Os eus de um McDonalds mais perto de você.

Era por volta da hora do almoço e eu acabara de chegar a Salvador, voltando de Ilhéus, junto a uma querida amiga, após três dias de comemorações do centenário de Jorge Amado. Estávamos ainda encantadas pelo violão poético de Caetano e pela cachaça sonora dos sons, verbos e brisas que vinham da Família Caymmi. Sem contar a tarde de domingo, que engoliu a noite ébria em batuques e vozes molhadas, tocando samba, mpb, rock, folk e modas de viola das melhores safras musicais! Tudo foi, de maneira concisa, flutuante demais...

Naquela segunda-feira ensolarada, em um tedioso engarrafamento, nós suportávamos - famintas - a constatação de que era preciso voltar imediatamente ao mundo urbanoide do cotidiano soteropolitano:

- Vamos almoçar no McDonalds!

Sóbrias e decididas, rumamos à lanchonete mais próxima. 

Na mesa ao lado, três prováveis estudantes de ensino médio: duas meninas e um menino. Ouvindo em recorte, eles conversavam em modo de confissão, declarando confidências em alto e bom som. Pelo tom das vozes, pude notar a  felicidade deles por haver diante de si espelhos da sua loucura mais íntima. Uma  das meninas continuou o assunto:

1: - Ai, que bom encontrar alguém que seja tão louco quanto eu. Vocês também sabem que, quando eu vejo um número, eu só penso em sexo, ou se ele é masculino ou feminino?

2: - Eu também! Por exemplo, o seis é uma mulher grávida!

1: - O cinco é homem.

3: - E o oito é uma mulher gordinha.

1: - O oito eu não consigo definir!

3: - Com aquela cintura e aquele bundão? Tá na cara que é mulher!

2: - Vai ver é "sapatão"?

1: - É, pode ser...

2: - Mas o seis, definitivamente, é uma mulher grávida!

Eu quase engasgava e não conseguia mastigar o sanduíche. Segurei a respiração para não rir em voz alta, ao mesmo tempo em que achava tudo muito interessante! 

Pois, ao lado do devaneio alheio, logo ali, estava eu engolindo a cultura capitalista ao molho cheddar, depois de respirar a voz rouca e linda de Nana Caymmi. Eu, que por aquela chuva pude sentir a emoção das entidades que moram nas nuvens. Eu, que me sentia nós, ao sorrir empaticamente por olhos de conhecidos e desconhecidos que se encantavam por aquela oportunidade musical e cultural única. Eu, que ouvira "canções pra caminhões de guitarras e coros" e batucara na mesa plástica, alternando entre goles e sorrisos. Eu, que sambei sem tirar o pé do chão, embora a alma estivesse solta ao "vento ateu". Eu, que queria "passar uma tarde em Itapuã", mas só me restava aquele resto de batata frita. Eu, com minha poesia e filosofia barata de mesa de Barrakitica! 

Eles lá, expondo suas fantasias mais esdrúxulas - como quem atualiza status no Facebook sem vergonha ou qualquer preocupação com julgamentos, desde que haja muitos "curtiram". Eles sendo seus eus, na hora e na vez da juventude, em suas mesas de fórmica com cheiro de fastfood. E eu aqui, que não sei ao certo se "amo muito tudo isso", querendo manter a viagem acesa na memória. Logo eu, que tento expor de modo lírico e sarcástico os assombros de uma pessoa que trilha com perplexidade e espanto os caminhos da misteriosa vida humana.

A gente nunca imagina o que nos espera em um lugar que poderia ser qualquer esquina do mundo. 




quarta-feira, 18 de julho de 2012

Dez anos em doze ou "Não vou jogar meu destino contra o seu num filme piegas sem sal"


Outro dia ouvíamos uma música francesa tocando na rádio que costumamos sintonizar. Ele me perguntou:

- Quem cantando aí?

Alguns segundos viraram quase minutos:

- Eu sei... é... pera... é Charles Aznavour! Lembro que lá em casa tinha um disco dele. Mas por quê?

Rindo, ele me disse:

- Oxe, porque você tinha a obrigação de saber! Esse é 'clássico'!

Foi então que resolvemos inventar o teste (ou seria uma brincadeira?) que nomeamos “Responda ao Quiz-Trívia para saber se você vai ficar comigo”...

Ele: - Quem é João Gilberto?

Eu: - Você gosta de matar traça?

Ele: - Diga o nome de cinquenta cantoras brasileiras.

Eu: - Você gosta de fazer cafuné?

Ele: - Qual o nome do crítico musical mais chato do país?                                                

Eu: - Você gosta de Wim Wenders?

Ele: - Gil ou Caetano?

Eu: - Então você toca Clichê do Clichê?

Ele: - Qual o nome da primeira música que tocou nas rádios?

Eu: - Você gosta de João Cabral de Melo Neto?

Ele: - Recite um poema de Waly Salomão.

Eu: - Você gosta de cerveja?

Ele: - Quem é o principal parceiro de Michael Sullivans?

Eu: - Você gosta de Matisse?

Ele: - Quem compôs as Bachianas Brasileiras nº5?

Eu: - Você gosta de mim?

Diante de abastadas referências, eu reviro diariamente o baú de tudo em mim, por onde eu fui e de onde eu vim. Diante de minha simples-embora-complexa existência, ele só teve de responder que sim.

E já são dez anos em doze, entre encontros e desencontros. Mas a brincadeira (ou seria um teste?) nunca tem fim...



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segunda-feira, 18 de julho de 2011

Pedestre ou motorista?

Hoje pela manhã, num programa de rádio, houve muitas reclamações contra a recente instalação de um semáforo localizado em uma cidade circunvizinha a Salvador. Pessoas se queixavam do longo engarrafamento provocado pela mudança ocorrida no tráfego, descerrando todo tipo de agravo à prefeita de lá.

O engraçado é que nenhum pedestre ligou reclamando. Imagino que, de algum modo, a instalação tenha sido em benefício destes. Até porque, que eu entenda, políticas públicas são prioritariamente voltada às pessoas, e não para os carros. Porque antes de ser motorista ou ter um carro, todo mundo é pedestre. E antes de ser pedestre, todo mundo é cidadão. Mas a gente se esquece disso.

As mesmas pessoas que criticam a crise de valores pela qual passamos são as primeiras a reclamar em favor próprio, isto é, em favor de suas máquinas. Exemplo é que, numa das ligações, ao se queixar dos desgovernos públicos ante a mobilidade urbana, um ouvinte relatava a dor que ele sentia, e ele disse assim mesmo - "como dói" -, quando o carro novo dele passava por um buraco.

É que o cidadão é a própria máquina, coisificado pelo capital, que inverte a lógica e nos desumaniza, fazendo com que o sentimento de existência venha pelos objetos. Objetos que supostamente nos fazem ser sujeitos. Objetos que nos conduzem às queixas como consumidores insatisfeitos, apenas consumidores. Mas a gente se esquece disso.

Haja esforço para se manter humano, demasiadamente humano. Também quero exercer a cidadania; vamos tentar? Talvez, na situação de motorista, eu ficaria p... da vida. Só que compreendo muito bem como é o risco de atravessar na faixa de pedestre, abaixo do redundante semáforo vermelho a indicar nosso direito. Pois, ainda assim, motoristas vêm desgovernados, apressados e cheios de si, empoderados pelo ronco de seus enfurecidos motores.

Aprendemos desde criança a olhar para os dois lados ao atravessar a rua. E por que não aprendemos a olhar para os dois lados diante de um fato? Nunca se sabe quem vem de lá, mas podemos imaginar como é estar na pele do outro. Nesse caso, aquele sujeito-pedestre ali, que precisa caminhar até a próxima calçada, em seu digníssimo direito, talvez tendo a mesma pressa que você para chegar ao local de trabalho e, enfim, bater seu ponto são e salvo. Mas a gente se esquece disso.



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sexta-feira, 17 de junho de 2011

Eu e os barulhos do silêncio musical.


Eu estou de (merecidas) férias, escutando amiúde no fone de ouvido um CD novo que comprei. É que assim percebo melhor cada arranjo, é quando as melodias me balançam melhor e o ritmo se aproxima de meu comboio de cordas. E é assim que as letras começam a fazer mais sentido para mim. Quando desperto, ali estou eu, seja no ônibus ou no meio da sala, dançando e sorrindo para o nada!

Pois bem. Você já reparou como o silêncio e o barulho entre um acorde e outro, cada pausa e a interpretação têm de estar bem sincopadas? Eu sempre viajo nisso... Quando eu era estudante e morava numa República, tinha uma amiga que, como eu, assobiava todos os arranjos. A gente sabia de cor os tchans, prins, pruns e demais barulhinhos que quase passam despercebidos a ouvidos nus. Nós sempre ríamos muito de nossas coincidências rítmicas!

Como sempre, fico cá a pensar sobre o processo de criação dos arranjos musicais. Valorizo cada "lenço azul" que cai na música, seja suavizando ou pesando a arte musical como deve ser. Não sei se isso mexe com todas as pessoas, mas com certeza deve ter uma função especial! Por exemplo, eu me lembro de um dia, quando saí com um amigo para um show de jazz. Já estávamos, cada um a seu modo, unidos ao som que ecoava. Ali, em meio a todas as pessoas, veio a mim uma metáfora epifânica: será que neste corpo-banda o piano é que era os membros, o baixo era o coração, a bateria era o oxigênio que fazia pulsar as artérias e o sax entoava o que seria a nossa voz? Só sei que era meu momento de flutuar...

Nesse compasso, talvez por isso eu admire tudo quanto é tipo de música. Sem distinções. Porque no fundo o que eu quero mesmo é me sentir viva, sentir pulsando em mim cada barulhinho musical, venha de onde vier. Meu único critério é que deva alimentar sem azias ou regurgitações o meu silêncio contemplativo da arte e das letras.





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sexta-feira, 20 de maio de 2011

Crônica de uma tarde de sexta-feira

Depois de uma manhã exaustiva no trabalho, recebi o convite de uma amiga para almoçarmos juntas. Às vezes saio desenergizada das profundidades alheias e preciso urgentemente de uma descontração. Então, aproveitamos para colocar o papo em dia, com nossas banalidades acompanhadas de dois chopes ao ponto. Só não estava nos planos o perfume das peruas na mesa ao lado nos inebriando mais do que o álcool.

Decidimos comer a sobremesa no seu apartamento, que fica em frente ao shopping onde estávamos. Enquanto ela preparava o mousse industrializado de chocolate com pedaços, peguei um livro de bolso de Caio Fernando Abreu e fui à varanda passar o tempo.

, piscar é uma espécie de vírgula que os olhos fazem quando querem mudar de assunto.

Adorei esse trecho da página 60. Olhei para a frente e lá estava um segurança do shopping trabalhando, posicionado embaixo da árvore. Pensei: deve ser interessante trabalhar olhando a vida que ali circunda. Fiquei a imaginar o tanto de pessoas que transitam de lá para cá e de cá para lá!

O que será que passa na cabeça daquele sujeito a cada dia de trabalho? Que músicas ele fica ouvindo do rádio instalado dentro de sua cabeça? Eu ri sozinha imaginando como seria a voz de Silvano Salles, "o cantor apaixonado", declamando suas dores ali, no interior daquele homem. Sua cabeça fazia meneios de um lado para o outro, já que a atenção é necessária e a postura deve ser sempre ereta.

De onde eu estava pude ver um arsenal de tipos e "tipas" elencados por roupas, modos de andar, com suas conversas que podiam ser ouvidas aos trechos, entrecortados por exclamações, tons de voz e expressões faciais. Ah, não posso esquecer: ele não usa carimbos, mas deve haver uma paranoia instalada em cada profissional da área de segurança, sempre a postos para identificar o perigo a qualquer momento. Há também o tempo que muda o tempo todo em Salvador... E ali os dias iam, do sol escaldante às chuvas frontais, dos turistas aos pedintes; sem falar no fumante, do lado de fora, alimentando o vício. Tem aquele que passa apressado, o que vai bem devagar, o estressadinho ao telefone celular... ou o perfume que fica no ar!

Pisquei de novo e percebi que minha amiga já estava me chamando pela terceira vez. O mousse estava servido. Era, enfim, a descontração que eu precisava. E voltei a outros assuntos, enquanto eu refletia Drummond: "Eta vida besta, meu Deus"!



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